O projeto “A Bossa de Teó” registrou um marco na preservação da memória cultural de Teófilo Otoni ao reunir dez artistas e músicos de relevância histórica para contar, em primeira pessoa, a trajetória da música brasileira no município. A pesquisa teve como foco a Bossa Nova e seus desdobramentos, mas acabou revelando uma paisagem musical muito mais ampla, marcada pela diversidade de gêneros, pela força das tradições populares e pela necessidade urgente de preservar esse patrimônio imaterial.
Entre os entrevistados estão nomes como Munira Molaib, pianista e ex-secretária de Cultura que lidera o Grupo de Seresteiros; Semi Handeri, grande promotor da Bossa Nova na cidade nos anos 1980 e 1990; Roberto Tomich, sanfoneiro e produtor musical que transformou bares e casas de show em polos culturais; e César Porto, músico que cresceu influenciado por movimentos como o Clube da Esquina. Também compõem a pesquisa artistas de diferentes gerações e estilos, como Berguinho, ligado ao samba de terreiro; Miro, marcado pela presença da Bossa Nova em seu repertório; Rogério Guimarães (Pila), defensor da identidade artística frente às transformações da indústria fonográfica; Antonio Tiago, cuja trajetória destaca o papel da música como ferramenta de inclusão; Marcílio Cardoso (Tilika Batuque), herdeiro da tradição das escolas de samba locais; e Marcela Veiga, pianista, cantora e educadora que integra música, teatro e formação cultural.
Os relatos mostram que Teófilo Otoni já teve uma cena musical vibrante, com espaços como o Bar do Tião do Cavaquinho, os clubes Bem Bolado e Lamole, e festivais como o Festicanto, que revelaram talentos e abriram caminhos para novas gerações. Hoje, porém, há um consenso de que a música brasileira perdeu espaço para gêneros mais massificados, em especial o sertanejo universitário, o que fragilizou a diversidade cultural da cidade.
A pesquisa identificou três desafios centrais: a perda de tradições musicais, o risco de elitização de gêneros como a Bossa Nova e a necessidade de garantir maior visibilidade aos músicos locais. Como soluções, os entrevistados apontaram caminhos concretos: inserção da música nas escolas, resgate de registros históricos, fortalecimento de políticas públicas como as Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, e valorização de projetos comunitários que mantêm viva a produção cultural, como o Arte na Praça, o Samba da Ladeira e o Motofest.
Ao reunir diferentes vozes, “A Bossa de Teó” demonstrou que a música de Teófilo Otoni é um patrimônio vivo, mas em risco. O projeto não apenas documentou essa riqueza, como também a traduziu em prática: o concerto “Tempo de Bossa”, realizado em novembro de 2024, reuniu gerações de músicos em um palco aberto e gratuito, democratizando o acesso à cultura e homenageando as raízes afro-brasileiras que sustentam a música nacional.
Mais do que um registro, o projeto representa um convite para que artistas, gestores públicos e a própria comunidade se unam em prol da continuidade dessa história. A música de Teófilo Otoni, plural em estilos e identidades, precisa de espaços, memória e políticas de incentivo para que siga pulsando como força transformadora na vida cultural da cidade.